Valda Suely
Se a alma não é pequena...
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A terceira lâmina e a arte resgatando a vida
 
     Há quem faça dissociação e o tema pode gerar inúmeras discordâncias, mas vamos considerar aqui que as letras de músicas entram no terreno da poesia. Tomando poesia como sinônimo de arte, como quis Platão, recuperamos a ideia de poíesis, ou seja, formas de criação afastadas do real, relacionadas, então, com as produções artísticas em geral. Logo, toda arte contém poesia.
     Na junção das palavras com a música, vocábulos e sons se completam, ajustam-se e a harmonia entre essas duas modalidades contribui para expressar o inefável, ou seja, aquilo que não se consegue traduzir apenas com palavras. Assim, essa junção é capaz de auxiliar na apreensão das subjetividades externadas pelo poeta.
     Esse conjunto tem papel fundamental para a formação da cultura e construção do imaginário popular, já que a música sempre e cada vez mais se legitima no cotidiano, enquanto veículo artístico. Isso ocorre de forma especial na cultura brasileira, que, de maneira geral, não se entregou facilmente ao hábito da leitura de textos poéticos construídos apenas pela palavra escrita, o poema.
            Na ousadia de expressar um ponto de vista, lanço um olhar para a música “A terceira lâmina”, com letra, melodia e voz de Zé Ramalho.
 
A terceira lâmina
                               Zé Ramalho

É aquela que fere
Que virá mais tranquila
Com a fome do povo
Com pedaços da vida
Com a dura semente
Que se prende no fogo de toda multidão
Acho bem mais do que pedras na mão
Dos que vivem calados
Pendurados no tempo
Esquecendo os momentos
Na fundura do poço
Na garganta do fosso
Na voz de um cantador

E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera que o começa a devorar
Acho que os anos irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a ideia

De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador


© EMI Songs do Brasil Edições Musicais (EMI)
 
 
            A qualidade estética da letra, arquitetada à melodia, e ainda, nesse caso, externada pela voz forte e quase que declamatória do intérprete, imprimem ao conjunto uma harmonia ímpar, capaz de traduzir o belo em termos de arte. A temática versa a respeito da capacidade do artista – por meio da voz do cantador - de restituir a vida, a esperança àquele ouvinte que precisa sair do poço, da garganta do fosso.
     O disco foi lançado em 1981, período de ditadura militar em que governava o General João Baptista Figueiredo (1979-1985), o qual decreta a Lei da Anistia, concedendo o direito de retorno ao Brasil para os políticos, artistas e demais brasileiros exilados e condenados por crimes políticos. É o terceiro disco de Ramalho, que recebe o mesmo nome da terceira faixa: “A terceira lâmina” e que reúne discursos sobre a liberdade e o descaso com os humildes. Tratava-se, em síntese, de um período de conflitos sociais na busca pela redemocratização. Em meio a cartas-bomba colocadas em órgãos da imprensa e da OAB (Ordem dos advogados do Brasil), ocorre, em 30 de Abril de 1981, a explosão de uma bomba, durante um show popular que comemorava o dia do trabalho, no centro de convenções do Rio Centro.
     Nesse contexto, Zé Ramalho enuncia a mensagem libertária dessa música cuja leitura das cifras pode ser compreendida como manifestação dos desejos de liberdade, cidadania, democracia, como um protesto e, ao mesmo tempo, uma iluminação direcionada aos oprimidos na conjuntura da época, convidando-os a saírem da situação de angústia e repressão.
     O próprio autor comenta o conteúdo do seu disco ao apresentá-lo: “O título é uma relação ao meu terceiro disco, que é uma lâmina no seu formato e que traz na terceira faixa a minha terceira mensagem em forma de música e poesia. Traz ainda letras políticas e românticas. Num tom mais ameno, com discursos sobre a liberdade e o descaso com os humildes. Gosto muito deste disco [...] O ano era 1981, e o tempo era cheio de viagens".
     O que “virá como guerra”, declara o poeta, nessa música, é a voz do cantador, por meio desta música. É o que nos diz a letra, quando, logo de início, anuncia: “E virá como guerra / a terceira mensagem”. Ao usar o termo ‘lâmina’, em tom místico, visionário, o poeta/letrista possibilita ao seu leitor/ouvinte efeitos de sentido que vão além da ideia do formato do disco. A estrutura delgada de uma lâmina, por seu caráter cortante, alude a ferida, dor, provocados por “aquela que fere”. No meio gráfico, lâmina designa a chapa onde se grava o que deve ser impresso. Assim, é possível entender que fica gravado, impresso, o ideário do cantador veiculado pela sua voz.
     Esta letra, hermética, de início, constrói um ar de mistério, pois traz o peso da carga semântica: “fome”, “dura semente”, “que se prende no fogo”. O tom é de dilaceramento. Entretanto, isso ocorre, nos primeiros versos, por meio de um conjunto de imagens aparentemente soltas, o que torna difícil a ao leitor/ouvinte a apreensão de sentidos. Os versos curtos, hexassílabos (versos com 6 sílabas poéticas) imprimem ao texto um ritmo acelerado ao encadeamento das imagens, o que traduz a aflição do eu lírico (o eu que fala na canção). Por outro lado, se as imagens aparecem quase que em simultaneidade, essa elaboração contrasta com o tom “oralizado” de um cantar quase falado e lento, característico do intérprete.
     O aspecto místico, proporcionado pelos efeitos mencionados, permite-nos lembrar também que, no campo do ocultismo, a palavra lâmina designa cada uma das cartas do tarô. Nesse âmbito, a terceira lâmina, o arcano maior 3 é a Imperatriz, que representa a alma cristificada, produto dos arcanos 1 e 2, daí, ser símbolo de inteligência superior, realização, criação, tomada de consciência. O Arcano nº. 3, de acordo com tarólogos, revela também produção material e espiritual, que se impõe, não pela força, mas pela perseverança, a confiança em si. A terceira lâmina, a Imperatriz, quando surge num lançamento, indica a capacidade para vencer as provas que se apresentam. Um dos Métodos de tiragem das cartas é o método das três lâminas. A primeira representa o passado, a segunda o presente e a terceira o futuro. Relacionando com a música, é possível entrever o aspecto visionário do eu lírico, que prenuncia um futuro promissor, a consecução dos objetivos e a superação de obstáculos, quando diz:
 
Acho que os anos irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a ideia

De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador

 
     O eu lírico inicia essa letra referindo-se a um contexto social geral, o qual pode ser percebido pela presença da terceira pessoa (eles/elas) do discurso em: “Com a fome do povo”, “no fogo de toda multidão”, “Dos que vivem calados”. Tais expressões denotam um universo simbólico que constrói o espaço social.
     Mais adiante, é possível ver que ele singulariza essa terceira pessoa. De grupo social, passa a discorrer sobre uma terceira pessoa do singular (ele/ela), referida como “o homem”, que representa o ser humano e independe de gênero:
 
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera que o começa a devorar

 
     Ao final, o eu lírico inclui-se no contexto de que fala, passando a usar a primeira pessoa do plural (nós = eu e os demais), conforme se vê em:
 
Que teremos no olho
Novamente a ideia
De sairmos do poço

 
     Assim, da situação social, do coletivo, onde se insere o eu lírico, emerge o sujeito individual. Em meio a esse conjunto, o poeta, ao final da letra, dá destaque ao sujeito oprimido, até então, oculto na multidão:
 
Dos que vivem calados
Pendurados no tempo
Esquecendo os momentos
Na fundura do poço
Na garganta do fosso
     
     A referência a esse tipo de sujeito, individualizado, introspectivo, constrói a imagem daqueles que vivem “pendurados no tempo”, “esquecendo os momentos” que se isolam em uma dimensão imaterial. Caracteriza-se, então, estado de apatia desse sujeito, em relação ao real, ao seu tempo presente, por parte do despersonalizado, que vive desligado do mundo, mergulhado em sua sombra e que, por essa razão, “pensa na fera/que o começa a devorar”.
     Carl Gustav Jung (1875 -1961), psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundou a psicologia analítica e desenvolveu, entre outros conceitos, os de personalidade extrovertida e introvertida*. Para Jung, cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado, em sua energia psíquica, para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo externo. Distinguem-se, então, duas formas de atitudes/disposição das pessoas em relação ao mundo prático. Essas características, para o estudioso, são facilmente perceptíveis  para as pessoas em geral e independem de camadas sociais. Sobre esses dois tipos de personalidades, Jung relaciona ao introvertido atitudes de reflexão e ao extrovertido a iniciativa e a ação prática. Ainda segundo ele, nenhum ser humano é exclusivamente introvertido nem extrovertido, essas duas atitudes existem dentro dele, mas só uma delas se desenvolve como função de adaptação. A partir daí, o autor supõe que a extroversão, de forma menos intensa, existe no também no introvertido e vice -versa.
     Se pensamento é uma característica fortemente introvertida, que pode levar inclusive ao isolamento; então, sentimento, sensação e intuição são características de oposição, por isso, traços mais extrovertidos. Sendo o subjetivo algo tão relevante na vida do introvertido, compreende-se que o introvertido tende a considerar a subjetividade em detrimento dos fatos e dados concretos.
     Assim, quanto aos “que vivem calados, pendurados no tempo, esquecendo os momentos”, o poeta vê muito “mais do que pedras na mão”. O poeta não concentra sua percepção nas pedras, pois elas são instrumentos materiais. Vê, acima de tudo, o sofrimento dessas pessoas, que, vez por outra, pode resultar no desabafo de atirar as pedras de forma inconsequente. Vê alguém que, na dificuldade de se manifestar, de assumir uma postura de protesto, reserva-se,  permanecendo na fundura do poço.
     A voz do cantador, nesse caso, "virá como guerra", com o objetivo de ferir, porque ler a arte pode proporcionar conhecimento, evocar sensibilidade, crescimento, e crescer constitui um processo dolorido, uma vez que modifica estados de alma. Assim, por meio do poema-canção, tendo como veículo a terceira lâmina, terceira mensagem (o disco, a música), será possível se fazer reverter a situação guerra e paz, aflição e coragem.
     Essa é uma forma de compreender o apelo do eu lírico, no sentido de que não se não se pasteurize a felicidade. Equivale a dizer que ela não seja adaptada ao gosto popular, a uma busca da satisfação pessoal de todo e qualquer ser humano através de um único modelo massificado. A música propõe, então, a transcendência do sujeito. O “eu”, inserido nessa multidão, surge aos poucos, revela-se, pois é único. E surge a partir da voz do cantador, da música, da arte. É o que possibilita a ele tomadas de consciência, que podem lhe recobrar a certeza de, a partir de então, a ideia de sair do fosso e do poço. Certeza esta que será mostrada "no olho", popularmente conhecido como a janela da alma. Ou seja, a certeza que vem do mais íntimo de cada um. Em síntese, ressalta-se, nessa letra/poema, a capacidade da arte de nos redimir, de resgatar a vida.
 
*JUNG, C.G. Fundamentos da Psicologia Analítica. Petrópolis: Editora Vozes, 1971
Valda Suely
Enviado por Valda Suely em 09/04/2018
Alterado em 09/04/2018
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